Vinho: Bebida alcoólica ou alimento?
por João Carlos Cainelli (enólogo)
 
     Historicamente o vinho é uma das bebidas alcoólicas mais antigas e por isso a mais carregada de senso cultural. Primeiramente uma bebida reservada, o vinho destinava-se a privilegiados enquanto para a maioria da população restava a cerveja ou os sucos de frutas.

     Para o escritor e historiador Gilbert Garrier, os usos religiosos do vinho são tão antigos quanto à própria religião. No Egito faraônico, os deuses eram honrados através de oferendas de vinho. O culto a Dionísio entre os gregos e, posteriormente, a Baco entre os romanos, foi transmitido à Cristandade e sobrevive até nossos dias sob formas profanas ou religiosas. Encontra-se na Bíblia, por exemplo, mais de 500 alusões à uva e ao vinho: nos versículos do Gênese, Noé primeiramente plantou a vinha após o dilúvio, e esta aparece como símbolo da renascença de uma humanidade purificada.

     A História mais uma vez nos serve para contextualizar e diferenciar o vinho de outras bebidas. Atualmente em discussão, o uso do vinho como alimento funcional vem causando polêmica na sociedade, principalmente pela posição da classe médica em relação a seu conteúdo alcoólico.
Ao analisar a regulamentação da publicidade dos vinhos na Comunidade Econômica Européia, por exemplo, verificamos que a principal preocupação está em não encorajar o consumo excessivo, não incitar a bebida aos condutores e principalmente a menores de idade, não apresentar o álcool como solução aos problemas sociais, não sugerir que o consumo de álcool leva ao sucesso ou à aceitação social, não deixar crer que o consumo de álcool aumenta a lucidez ou a força física e, para finalizar, que a abstinência não é um sinal de inferioridade.

     Neste contexto, é importante levar às pessoas os benefícios que o vinho pode oferecer quando bebido com moderação, durante as refeições, regularmente e por pessoas que não apresentam contra-indicações ao consumo de bebidas alcoólicas. Estes benefícios são atingidos pela presença dos polifenóis, principalmente nos vinhos tintos, que têm um potente efeito antioxidante e de ação antibiótica. Além disso, a intenção da lei que propõe transformar o vinho em alimento funcional não foi incentivar o consumo excessivo da bebida, mas sim o de aliviar a pesada carga tributária que incide sobre o produto e que enfraquece seu consumo interno em relação aos concorrentes importados.
      
     Uma reflexão se faz necessária, principalmente quando temos conhecimento das implicações negativas que o consumo inconseqüente de bebidas alcoólicas pode trazer. Porém, vale ressaltar que a regulamentação do vinho como alimento funcional pode viabilizar a uma camada maior da sociedade brasileira uma bebida que é cientificamente comprovada mais saudável e com múltiplos benefícios secundários.
 

Artigo escrito pelo enólogo João Carlos Cainelli para o site SegredosDoVinho
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